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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

2 A CRUZ E A ESPADA

A temperatura no centro da cratera ainda passava dos 500º C, mas nas imediações, o solo já ia recuperando sua cor inicial, de um ocre-amarelado intenso. Enquanto a parte inanimada do cenário gradualmente reassume um aspecto familiar, o mesmo não podemos dizer dos componentes outrora vivos daquele lugar. Em meio ao turbilhão de correntes de convecção que serpenteiam ao redor dos buracos na rocha arenosa, pequenos restos de esqueletos jaziam semicobertos pela poeira radiativa.
Um imponente ser metálico pairava a cima dos esqueletos, vasculhando as ossadas com um feixe de luz vermelha. O escaneamento tridimensional dos restos mortais não deixavam dúvida quanto à natureza daqueles corpos. Junto a dois n’umyanos, haviam restos de pelo menos dois indivíduos de outra espécie inteligente. O crânio esfacelado revela quatro órbitas oculares, assim como os restos de carapaça quitinosa facilitaram muito a identificação, e não foi necessário consultar o banco de dados exobiológicos da belonave Sad Beetle, para chegar a conclusão de que os alienígenas eram Aldhoritas.
A criatura de metal branco-prateado acionou uma espécie de campo de força luminoso que a propeliu de volta à estratosfera, onde flutuava uma espécie de silo em forma de cápsula. Assim que o ser prendeu-se ao objeto por meio de ventosas magnéticas e encaixes mecânicos, a cápsula espacial desapareceu num torvelinho cinzento,deixando em seu lugar apenas um vazio gélido.
Reagan Mikulsun observava pelos visores o painel de escalas luminosas que descreviam o estado do robô de monitoramento. A transferência dos dados para o computador central da nave durou apenas uma fração de segundo, e o soldado estava pronto para armazenar as informações e proceder os devidos relatórios. Não cabia a ele analisar ou entender o que tinha acontecido: apenas guardar os registros da forma correta e retornar com sua nave até o Planeta Seminole. Reagan Mikulsun pertencia à Raça dos BOLD, e sua missão em N’umya resumia-se apenas a realizar o ataque ao planeta. Os BOLD eram supersoldados cujo único objetivo na vida era o de lutar e vencer. Não cabia a eles planejar, estudar ou pensar sobre o que faziam.
Eram apenas engrenagens de uma poderosíssima máquina de guerra: O Exército Humano. Reagan foi enviado ao planeta N’umya em sua belonave Classe Mono Sad Beetle para realizar um ataque de advertência. Os N’umyanos faziam parte da Raça dos WILD, constituída por todas aquelas espécies de alienígenas que aceitavam viver sob a proteção da Terra, e estavam prestes a ser aceitos num patamar acima quando revoltas ocorreram conduzidas por agitadores. Incapazes de conter as forças que buscavam o atraso evolutivo do planeta, a sua aceitação num degrau superior do Mercado Pan-Solar foi seriamente comprometida. Para evitar que a dissenção contaminasse outros planetas na mesma etapa, foi ordenada a retaliação imediata contra N’umya.
Reagan não sabia ainda o que a detecção de aldhoritas agindo em N’umya podia significar. Só sabia que estes alienígenas eram inimigos, fazendo parte da Raça Maldita dos VOID, as espécies que recusaram a aliança com os humanos e seus planos de salvação galáctica. “VOID bom é VOID morto”, era o que Reagan costumava dizer a seus colegas BOLD, mas a perseverança daqueles extraterrestres em recusar o auxílio dos terráqueos era demais para a mente pura do soldado.
Reagan Mikulsun, 33 anos, cabelos tingidos de verde, e olhos violeta, nascido no Planeta Ta'aroa, aprendera em suas aulas de catecismo, que quando o Supremo Deus Vencedor derrotou o Demônio, este não o baniu para as profundezas do Inferno, com pensavam erroneamente nos séculos anteriores, mas sim baniu-o para as profundezas do Espaço. Lá, livre da presença dos corajosos Filhos de Deus, os Humanos, ele semeou o Universo com espécies malignas, a quem negou o conhecimento do Deus Verdadeiro. Quando os humanos conseguiram chegar em outros planetas, no início do século XXII, eles compreenderam que sua missão era levar a mensagem divina às outras espécies do Universo, e salvar estes “pagãos extraterrestres” das garras do Diabo.
Os N’umyanos persistiam em seu erro porque ainda viviam sobre a sombra do Maligno, do Blasfemo, do Inimigo. Reagan apertou seu relicário com força, enquanto rezava pela conversão daquela espécie pagã. Torcia sinceramente para que eles aceitassem a Luz e a Verdade.
“Arrependam-se!”, pensou ele.
Pois todo aquele que não arrepender-se e aceitar o Luz da Verdade, terá que contentar-se com a invencível luz dos canhões e bombas do Exército Humano.
Onde a Cruz falhou, a Espada, com certeza, não falhará.
A CRUZ E A ESPADA
Texto: Simoes Lopes

Um comentário:

William Cruz Fonseca disse...

Belonave - incentivando o pensamento

Bem interessante seu site, caso quiserem o meu é o que está acima.

 
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