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terça-feira, 6 de maio de 2008

9. TEMPO DE ESPERA

As luzes de sinalização no Hangar 18 do Cruzador Espacial Tokyo estavam pulsando com o brilho verde característico da sinalização de decolagem de uma das mononaves estacionadas.

Deflesh Ramos passou um pente no topete gomalinado, e ajeitou os cabelos louros-avermelhados com cuidado. O andar preguiçoso realçava ainda mais seus 2,10 m de altura, e ele soltou uma série de palavrões quando ouviu pelo fone que o reparo no campo de força da Tokyo já estava finalizado, mas que as decolagens ainda deveriam esperar uma autorização posterior.

O tempo de espera até que não chegava a ser incomum, mas Deflesh mostrava sintomas de uma impaciência exagerada. Como todo aqueles da Raça BOLD, este soldado, nascido na colônia terrana de Donar, era condicionado desde a mais tenra idade a ser ilimitadamente violento e caninamente obediente a seus superiores. Para evitar quaisquer problemas colaterais, todos os membros da casta guerreira eram obrigados ao uso permanente de drogas tranqüilizantes nos momentos em que não estavam lutando.

O militar donarense só pensava em retornar para sua mononave, a Silent Locust. Uma vez embarcado, o tédio iria embora, e ele estaria a caminho do distante sistema estelar de Galyssar. Lá, orbitando um dos satélites do Planeta Therasia, estava posicionado o enorme Couraçado Peace, prestes a partir em missão preventiva para o Planeta Aldhor. Rebeldes aldhoritas estavam agindo em planetas da Esfera Neutra, fomentando dissidências e ameaçando a paz do Mercado Pan-Solar.

A distância entre Thoth, o planeta colonial que a nave Tokyo orbitava neste momento, e o distante Aldhor era de incríveis 1.550 anos-luz, mas graças ao portal de Pathmos, a viagem não demoraria mais que alguns segundos. Pathmos era um dos raros Objetos Espaciais de Wermund que haviam sido descobertos na Via Láctea. Até o presente momento, nenhum cosmólogo, terrestre ou extraterrestre, havia conseguido explicar o funcionamento e a natureza de tais passagens interdimensionais.

Por um simples acaso histórico, os humanos foram os primeiros a descobrir e catalogar esta rara espécie de objeto cósmico, no ano de 2078, quando a nave exploradora George Gamow II detectou perturbações gravitacionais a menos de um ano-luz do Sistema Solar, concentradas numa espécie de bolha energética de natureza desconhecida. Com o tempo, a exploração da Nuvem de Wermund (assim chamada em homenagem ao grande cosmonauta e astrofísico do século XXI Wermund Christiansen) por sondas microbóticas levou à descoberta que aquela nebulosa de energia “estranha” não somente servia como uma passagem hiperespacial segura para o Sistema Solar de Atna, mas também podia servir como uma poderosíssima fonte de energia. Este primeiro portal dimensional foi batizado de “Drop” pelo mesmo Wermund, porque ele percebeu que a Nuvem emanava “pingos” de hiper-energia. Após a morte de Wermund, muitas outras Nuvens foram descobertas pelas naves terrestres, e receberam nomes sugestivos como Warp, Alice, Bermudas, Pathmos e Avalon.

Deflesh começou a ranger os dentes, cada vez mais impaciente com a demora. Quando dois funcionários do hangar vieram comunicar o prazo para a decolagem, o soldado não suportou conter a raiva e descarregou nos pobres coitados. Um empurrão atirou o mais alto da dupla, de nome Mork, no chão lustroso do corredor, enquanto o seu companheiro, de nome Zingar, foi lançado contra um robô-limpante, derrubando-o com um grande estrondo metálico. O tumulto atraiu a atenção de outros tripulantes. Alguns outros soldados, já cansados da rotina, viram nisso uma oportunidade de diversão, e começaram a gritar, e incentivar a briga. Os empregados civis da nave, todos eles colonos, tentaram impedir o confronto contatando seus superiores. Sabiam que ninguém seria capaz um BOLD com raiva.

A Sargento Norge Nuyt, adentrou o hall com pressa. Ela era alta, com cabelos negros e olhos verdes claríssimos. As mulheres eram preferidas para a dita função devido à sua grande dedicação, e recebiam um treinamento rigoroso para aprender a lidar com as explosões de testosterona dos soldados. Elas preferiam ser chamadas de Viragos ou Amazonas, e não gostavam de nenhuma falha na rigorosa disciplina que imperava nas hostes militares terranas.

Assim que percebeu o que estava acontecendo, ativou o “freio sonoro” e mirou na cabeça de Deflesh. Um disparo certeiro fez com que o homem ficasse mudo. O aparelho conhecido como “freio sonoro” ou “rédea mental” dispara uma bateria de pulsos infra-sônicos que catalisam uma série de reações bioquímicas no cérebro, provocando uma paralisia quase imediata, e terminando num torpor absoluto. O coquetel de drogas que todo BOLD ingeria constantemente consistia num complexo sistema de conexões químicas que poderiam ser rapidamente ativadas ou desligadas por determinadas freqüências sonoras. Norge carregava uma minúscula plaqueta em seu antebraço, acionável quando pressionada.

Os outros soldados, que haviam se aproximado e acompanhavam empolgados a confusão, dispersaram-se rapidamente assim que viram a amazona chegando.

Norge calcou o corpo inerte de Deflesh com a bota, enquanto inteirava-se do acontecido. Com um ar de desprezo, ordenou que os soldados mais próximos ajudassem a carregá-lo até a enfermaria mais próxima.

— O vôo da Silent Locust está cancelado! — gritou ela para os controladores de tráfego interno do Cruzador.

Não era a primeira vez que Deflesh Ramos perdia o controle. Norge iria enviá-lo para um check-up completo. Desconfiava que o organismo do soldado estava começando a rejeitar os entorpecentes mentais, sofrendo algum problema de saturação.

Norge sentiu que não podia ficar esperando por ordens superiores. Seu lema de vida era sempre agir antes que os problemas ocorressem.

Prevenir, e não remediar.


TEMPO DE ESPERA
Texto: Simoes Lopes
 
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