Faça sua busca

Google
 
Mostrando postagens com marcador Aldhor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aldhor. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de maio de 2009

10. MENSAGEM ENVIADA

A estação de pesquisa situada em Tyon era pequena, e funcionava há menos de quinze anos. O corpo de cientistas era pequeno: apenas 13 indivíduos polivalentes que tinham que cuidar da própria manutenção da base. Tyon era o único satélite a orbitar o imenso planeta gasoso Bradhamua, o maior do sistema estelar de Galyssar. Kamt-Rud era o líder informal da equipe, e dirigia um pequeno veículo automotivo de multitração pelas areias escuras da lua gelada. O projeto de colonização de Tyon pelos aldhoritas - a única espécie inteligente a habitar o sistema da estrela amarela Galyssar - estava prestes a completar seu primeiro centenário, mas o clima daquele mundo ainda era inóspito demais para abrigar uma população de colonos.
Kamt-Rud era o responsável por supervisionar o cultivo de fungos criófilos na Zona 17, onde o suprimento de água do caudaloso Rio Ibemis-Koa-Leam garantia as melhores condições climáticas da faixa tropical-sul. Os fungos trazidos de Aldhor tingiam os canais artificais de um violeta muito forte, mas não prejudicavam a potabilidade, e ainda garantiam a umidade necessária para manter a população de vegetais introduzidos em crescimento. O aldhorita arregalou os olhos vítreos, como se tentassem identificar um brilho enigmático no horizonte. Daya-Kebn, sua companheira, gritou pelo comunicador uma mensagem que foi totalmente obliterada por uma forte estática. Antes que ele pudesse pedir para que ela repetisse a frase, um trovão ensurdecedor ecoou pelos vales de cascalho negro de Tyon. A onda de choque que se seguiu derrubou o veículo e fez com que as membranas auditivas do aldhoritas se rompessem.
Antes que ele se desse conta do que estava acontecendo, um feixe de raios mortais calcinou tudo a sua volta.
Daya-Kebn assistiu à morte do marido pela tela dos sensores do quadrante leste, sentiu seus órgãos palpitarem com uma profunda sensação de mal-estar. A estação estava sofrendo um ataque súbito, e as pequenas mas mortíferas espaçonaves foram identificadas como naves de guerra humanas da classe Mono. Daya-Kebn ainda tentou em vão contatar a Central de Colônias em Aldhor, antes que um pulso eletromagnético desligasse todos os equipamentos, deixando-os à mercê do frio de 27 graus negativos da superfície de Tyon. Dois outros cientistas cairam mortos à sua frente: Jin-Kla, com úlceras horríveis espalhando-se pelo rosto, e Kat-Tomas, gritando de dor enquanto balançava o braço mutilado. Um forte brilho amarelado envolveu o prédio inteiro, e parecia que alguma espécie de campo energético varria o terreno com efeitos desintegradores. Pensando apenas em seu marido e amigos mortos, Daya-Kebn não sentiu dor alguma quando um turbilhão de partículas ionizadas dissolveu seu corpo.
O ataque era apenas um alerta do Mercado Pan-Solar aos governantes aldhoritas.
Mesmo após a destruição das bases em Tyon, nenhum mensagem havia sido enviada pelos humanos.
Os conselheiros aldhoritas mais experientes já sabiam que explicações não eram necessárias.
A destruição era a própria mensagem.
Deveriam fazer o que os Humanos queriam: entregar os dissidentes e extirpar qualquer forma de rebeldia.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

FICHA ALIENÍGENA 2: ALDHORITAS

ALDHORITAS

DADOS ASTRONÔMICOS

Estrela

Galyssar

Tipo

G2 V (anã amarela)

Sistema

7 planetas, 79 satélites

DADOS GEONÔMICOS

Planeta

Aldhor

Tipo

TG 0,993

Atmosfera

Oxidante 2,7

Diâmetro

10 136 km

Gravidade

0,82 gravum

Ano

422 dias

Dia

20 horas

Hidrosfera

78 % água

DADOS BIONÔMICOS

Taxonomia

3125 Cynentomon xanthomma

Pés

2

Mãos

2

Dedos

2/4

Esqueleto

Exoesqueleto

Olhos

4

Bioquímica

Hidro-carbônica

Sangue

azul-cobalto


Possuem uns três metros de altura, seus corpos são cobertos por uma espécie de carapaça quitinosa azul-metálico. Quatro olhos multifacetados de cor amarela se assentam sobre um crânio parecido com o de um cão. Possuem quatro dedos nos braços, mas apenas dois nos pés. Sua carapaça dorsal é formada por nódulos arredondados.

terça-feira, 25 de março de 2008

5. FUMAÇA COLORIDA

Glo Khan e Thúr Vizi chegaram bem na hora marcada. A pequena nave ovóide deles pousou no imenso espaçoporto de Glumak Tai. Ao longe era possível apreciar a magnífica visão da Cordilheira Verde com o Monte Glumak, o pico mais alto do planeta Glenor.

A delegação de embaixadores glenorianos estava ansiosa pelo contato. O líder consensual do grupo, Baro K’Nadikon, adiantou-se a seus pares, e caminhou com pressa na direção do casal de gurzinianos.

— Vocês são bem vindos em Glenor, representantes de Gurzin! Nós vos saudamos com grande alegria! — entoou Baro a saudação de praxe.

Os outros embaixadores glenorianos conversaram bastante entre si antes de se aproximarem do par de visitantes alienígenas.

Glo Khan coçou as escamas douradas em sua cabeça redonda, e fez a saudação de praxe aos embaixadores de Glenor. Thúr Vizi piscou os grandes olhos esverdeados com pupilas verticais — incomodada com o ar relativamente frio de Glenor — e juntou-se a seu parceiro no cumprimento.

— A situação em nosso setor estelar está muito tensa. O Mercado Pan-Solar está realizando operações em N’umya, e acusa os Aldhoritas de conspirarem contra a paz e fomentarem rebeldia entre os n’umyanos — Glo Khan apressou-se em iniciar o diálogo, preocupado que estava com a situação.

O Embaixador Baro fumava cinco palitos de teb. Estes palitos eram muito populares em Glenor, feitos de uma mistura colorida de resinas aromáticas com a cera extraída de um pequeno invertebrado marinho. Do alto de seus cento e três anos de idade, Baro via a Política Galática como uma infindável teia de mentiras embelezadas por um jargão pomposo. Sabia que os Humanos jamais deixavam de usar a força quando lhes convinha, e que a União Planetária não conseguiria conter os impulsos beligerantes por muito tempo.

O cheiro forte e doce do teb parecia incomodar um pouco o interlocutor de Gurzin, que começou a espirrar, fazendo seus longos apêndices carnudos em forma de bigodes balançar.

— Já fomos informados que uma delegação de aldhoritas renegados foi presa ao pousar em seu planeta natal — informou Baro, com uma expressão que corretamente analisada seria percebida como melancólico. Os Gurzinianos ficaram assustados.

— Estamos aqui em nome de Gurzin declarar nosso apoio incondicional à União Planetária, e solicitar o envio de uma frota de couraçados em nosso apoio. O patrulhamento de nossas colônias está insuficiente para impedir incursões dissimuladas das espaçonaves terranas.

Baro K’Nadikon deu uma tragada tão forte que um dos palitos de teb simplesmente desmanchou-se num clarão de luz colorida. Sabia que os Gurzinianos estavam com medo da presença das belonaves do Mercado Pan-Solar em sua região galática, e tinha convicção de que seria uma questão de tempo mais esse planeta deixar a União Planetária e aderir à Esfera Neutra. A detecção dos Aldhoritas em N’umya havia provocado um verdadeiro turbilhão nos círculos diplomáticos da União. A alegação dos terráqueos era que ao participar de operações clandestinas, Aldhor estava oficialmente retirando-se da Esfera Neutra para aproximar-se da União. No jargão da poderosa Agência de Risco da Terra, os aldhoritas haviam sido rebaixados da categoria WILD, isto é, “selvagem”, dos mundos considerados neutros, para a classe odiada dos VOID, “os vazios”, devendo ser considerados como aliados dissimulados da União Planetária.

Os Humanos deslocaram dois de seus mais modernos couraçados, Peace e Freedom, para as cercanias do sistema planetário de Aldhor, e exigiram a prisão dos “dissidentes”. Sem opção melhor à vista, o governo aldhorita prontamente atendeu as exigências do Mercado Pan-Solar, e os supostos espiões estão presos e incomunicáveis. Mas os terráqueos não se deram por satisfeitos e agora pediram que lhes fossem entregues os cativos.

A União Planetária reiterou pelos canais cabíveis que não tinha nenhum vínculo com Aldhor, e que não estava em seus planos nenhuma ação de confronto. Os embaixadores glenorianos foram escolhidos para conduzir as negociações por serem os mais antigos, e acumularem uma vasta experiência no contato com os humanos. Pelas leis de Glenor, quanto mais velho, mais qualificado era um diplomata, o cargo era vitalício e sem direito a aposentadoria. Em outras palavras, os diplomatas glenorianos dedicavam-se a negociar até morrer. Baro K’Nadikon e sua falecida mãe Jud’ru K’Nadikon, estiveram entre os principais artífices do Tratado de Torka, que definiu os limites entre as esferas de influência dos Planetas Humanos e a União Planetária, garantindo um cinturão de “amortecimento” formado por planetas neutros. Para isso funcionar, a União teve que renunciar às suas posturas pacifistas seculares e reativar sua tecnologia bélica. Só assim foi possível refrear o ímpeto expansionista dos terráqueos, que planejavam esmagar até mesmo os planetas mais antigos da União. Além disso, a União nada pôde fazer para impedir que os mundos já conquistados fossem libertos: a Terra manteve suas possessões de forma integral.

As últimas ações da União haviam sido tomadas às pressas para impedir mais um conflito. A Terra alegava — como sempre — que estava apenas defendendo-se de ameaças externas, e que tinha direito a zelar pela neutralidade dos planetas assim declarados. As diversas espécies alienígenas que compunham a União, que mal passavam do cinqüenta — número irrisório considerando-se as mais de 3.000 que fizeram parte dela nos séculos anteriores à expansão da Humanidade, estavam enviando seus representantes diplomáticos para Glumak Tai, a maior cidade do planeta Glenor, para votarem numa nova deliberação coletiva. Tais assembléias eram normalmente feitas por meio de hipercomunicação, mas o medo de interceptações e espionagem tornaram necessária a volta das grandes reuniões de corpo presente. Uma vez protegidos, os embaixadores poderiam expressar suas opiniões de maneira mais direta. A maioria das delegações chegara com o mesmo pedido: reforçar o contingente militar em seus setores, algo que estava ficando cada vez mais difícil para as sobrecarregadas frotas da União.

À medida que escoltava a delegação gurziniana para os monotrilhos da estação de transporte, Baro olhava para os círculos de fumaça que dançavam ao redor de sua cabeça, formando anéis, ora vermelhos, ora azuis, até acabarem finalmente dispersados pelas rajadas possantes do Vento Oeste que zunia pelo espaçoporto. Assim ele percebia as ações da União: meras nuvens passageiras de fumaça a rodopiar e dançar, funcionando como distração por breves instantes, mas incapazes de resistir à fúria da ventania.

Os ventos sopravam cada vez com mais força.

Ventos que vinham do Planeta Terra.


FUMAÇA COLORIDA
Texto: Simoes Lopes

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

3. O FIM DA TRANQÜILIDADE

A pequena espaçonave aldhorita acabara de ultrapassar a órbita de gigantesco planeta gasoso que era o mais exterior daquele sistema estelar. A tentativa de contatar os n’umyanos foram um completo desastre. Os habitantes de N’umya, o quinto mundo a orbitar a estrela vermelha Tavvar, haviam tentado sair da esfera de influência dos humanos, e sofreram com isso “violentas sanções”, o que no jargão terráqueo significava tornar-se alvo de fulminantes ataques retaliatórios.

Jep-Fil caminhava agitado pelo corredor principal da nave onde acabara era oficial de posto mais alto após a morte do Comandante Hat-Kon na superfície do planeta N’umya. Aldhor, seu planeta natal, fora membro da União Planetária, uma coligação que no passado incluía centenas de espécies dos mais remotos cantos da Via Láctea. Mas com a crescente expansão dos humanos e de sua invencível máquina de guerra, muitos planetas foram incapazes de manter-se neutros em relação aos odiados e belicosos seres do Planeta Terra.

A opção por integrar a Esfera Neutra pareceu mais sensata ao Conselho de Representação que governava o belo planeta Aldhor. Não foram poucos os conselheiros que votaram em prol de uma aliança com os terráqueos, mas a maioria demonstrou seu desprezo por eles optando por uma solução intermediária, tornando-se aberto tanto às delegações da União Planetária, como ao Mercado Pan-Solar, o nome pomposo com que os humanos autodenominavam seus domínios intergaláticos.

Hat-Kon não imaginava que os demônios terrestres continuassem agindo no sistema de Zynä após os ataques a N’umya, mas sua falha de avaliação custara-lhe a própria vida, e Jep-Fil viu-se obrigado a assumir o comando na nave Kirittaim Tuy, um veículo relativamente leve, usado para explorações científicas, que o próprio Hat-Kon e seu clã equiparam com armamentos improvisados para enfrentar imprevistos. Entretanto, as belonaves terrenas que foram avistadas ao redor de N’umya, mesmo sendo pequenos modelos da classe Insect, possuíam um poder de fogo grande demais para os aldhoritas.

E assim, a ação mais sensata deles foi simplesmente fugir, deixando rapidamente as órbitas planetárias mais internas da estrela vermelha e preparando-se para o salto hiperespacial. Jep-Fil também estava preocupado em quais seriam as repercussões da presença dos aldhoritas em N’umya, pois embora seu planeta oficialmente fosse neutro, existiam muitos de sua raça que desejavam retornar à União Planetária. E dentre os descontentes, um grupo muito influente era o Clã Medicinal dos Hat.

Os Terráqueos exigiriam uma punição exemplar aos aldhoritas rebeldes, e nem mesmo o renome dos Hat seria capaz de conter a fúria dos humanos. O barulho grave que retumbava pelas câmaras da Krittaim Tuy indicava que o hiperpulsor já estava acionando o salto além da velocidade da luz.

A recém-tornado comandante teria muito tempo para pensar em seu futuro enquanto se mantivesse no hiperespaço.

Quando retornasse ao espaço normal, contudo, a tranqüilidade iria embora.

O FIM DA TRANQÜILIDADE
Texto: Simoes Lopes

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

2 A CRUZ E A ESPADA

A temperatura no centro da cratera ainda passava dos 500º C, mas nas imediações, o solo já ia recuperando sua cor inicial, de um ocre-amarelado intenso. Enquanto a parte inanimada do cenário gradualmente reassume um aspecto familiar, o mesmo não podemos dizer dos componentes outrora vivos daquele lugar. Em meio ao turbilhão de correntes de convecção que serpenteiam ao redor dos buracos na rocha arenosa, pequenos restos de esqueletos jaziam semicobertos pela poeira radiativa.
Um imponente ser metálico pairava a cima dos esqueletos, vasculhando as ossadas com um feixe de luz vermelha. O escaneamento tridimensional dos restos mortais não deixavam dúvida quanto à natureza daqueles corpos. Junto a dois n’umyanos, haviam restos de pelo menos dois indivíduos de outra espécie inteligente. O crânio esfacelado revela quatro órbitas oculares, assim como os restos de carapaça quitinosa facilitaram muito a identificação, e não foi necessário consultar o banco de dados exobiológicos da belonave Sad Beetle, para chegar a conclusão de que os alienígenas eram Aldhoritas.
A criatura de metal branco-prateado acionou uma espécie de campo de força luminoso que a propeliu de volta à estratosfera, onde flutuava uma espécie de silo em forma de cápsula. Assim que o ser prendeu-se ao objeto por meio de ventosas magnéticas e encaixes mecânicos, a cápsula espacial desapareceu num torvelinho cinzento,deixando em seu lugar apenas um vazio gélido.
Reagan Mikulsun observava pelos visores o painel de escalas luminosas que descreviam o estado do robô de monitoramento. A transferência dos dados para o computador central da nave durou apenas uma fração de segundo, e o soldado estava pronto para armazenar as informações e proceder os devidos relatórios. Não cabia a ele analisar ou entender o que tinha acontecido: apenas guardar os registros da forma correta e retornar com sua nave até o Planeta Seminole. Reagan Mikulsun pertencia à Raça dos BOLD, e sua missão em N’umya resumia-se apenas a realizar o ataque ao planeta. Os BOLD eram supersoldados cujo único objetivo na vida era o de lutar e vencer. Não cabia a eles planejar, estudar ou pensar sobre o que faziam.
Eram apenas engrenagens de uma poderosíssima máquina de guerra: O Exército Humano. Reagan foi enviado ao planeta N’umya em sua belonave Classe Mono Sad Beetle para realizar um ataque de advertência. Os N’umyanos faziam parte da Raça dos WILD, constituída por todas aquelas espécies de alienígenas que aceitavam viver sob a proteção da Terra, e estavam prestes a ser aceitos num patamar acima quando revoltas ocorreram conduzidas por agitadores. Incapazes de conter as forças que buscavam o atraso evolutivo do planeta, a sua aceitação num degrau superior do Mercado Pan-Solar foi seriamente comprometida. Para evitar que a dissenção contaminasse outros planetas na mesma etapa, foi ordenada a retaliação imediata contra N’umya.
Reagan não sabia ainda o que a detecção de aldhoritas agindo em N’umya podia significar. Só sabia que estes alienígenas eram inimigos, fazendo parte da Raça Maldita dos VOID, as espécies que recusaram a aliança com os humanos e seus planos de salvação galáctica. “VOID bom é VOID morto”, era o que Reagan costumava dizer a seus colegas BOLD, mas a perseverança daqueles extraterrestres em recusar o auxílio dos terráqueos era demais para a mente pura do soldado.
Reagan Mikulsun, 33 anos, cabelos tingidos de verde, e olhos violeta, nascido no Planeta Ta'aroa, aprendera em suas aulas de catecismo, que quando o Supremo Deus Vencedor derrotou o Demônio, este não o baniu para as profundezas do Inferno, com pensavam erroneamente nos séculos anteriores, mas sim baniu-o para as profundezas do Espaço. Lá, livre da presença dos corajosos Filhos de Deus, os Humanos, ele semeou o Universo com espécies malignas, a quem negou o conhecimento do Deus Verdadeiro. Quando os humanos conseguiram chegar em outros planetas, no início do século XXII, eles compreenderam que sua missão era levar a mensagem divina às outras espécies do Universo, e salvar estes “pagãos extraterrestres” das garras do Diabo.
Os N’umyanos persistiam em seu erro porque ainda viviam sobre a sombra do Maligno, do Blasfemo, do Inimigo. Reagan apertou seu relicário com força, enquanto rezava pela conversão daquela espécie pagã. Torcia sinceramente para que eles aceitassem a Luz e a Verdade.
“Arrependam-se!”, pensou ele.
Pois todo aquele que não arrepender-se e aceitar o Luz da Verdade, terá que contentar-se com a invencível luz dos canhões e bombas do Exército Humano.
Onde a Cruz falhou, a Espada, com certeza, não falhará.
A CRUZ E A ESPADA
Texto: Simoes Lopes

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

1 DEMÔNIOS DO ESPAÇO



No planeta N’umya o céu é avermelhado, e volumosas nuvens amarelas escondem as altas montanhas. No vale de Turaz, onde outrora florescera uma densa floresta, povoada pelos grandes klunais, os ágeis ikaa e os graciosos urtha, hoje só resta uma imensa cratera ainda levemente fumegante. As dunas de areia radiativa são fustigadas pelo vento pestilento, e nenhuma forma de vida é vista num raio de muitos quilômetros.
Muito longe daquele lugar nefasto, depois das sinuosas curvas do outrora pujante rio Kan’ul, dois solitários n’umyanos caminham a passos lentos e dolorosos. Cobertos por uma grossa pele verde-oliva, os nativos deste planeta são baixos e atarracados. Possuem um bico córneo semelhante ao de uma tartaruga, e seus olhos são alongados, com pupilas vermelhas luminescentes. As mãos possuem seis dedos, e uma espécie de crina lanosa cobre seu dorso musculoso. O mais alto dos dois seres produzia sons ríspidos (provavelmente uma espécie de tosse) e sua pele estava coberta de feridas fétidas. Seu companheiro, de tamanho menor, tinha uma grande cicatriz na cabeça, e seu braço direito estava reduzido a um toco. Com sua única mão, carregava um tubérculo esverdeado.
—Kauran, meu filho — dizia o n’umyano mais alto — nosso mundo está morrendo. Quando eu era jovem, há muitos ciclos atrás, tudo era diferente. Os animais abundavam, florestas enormes cobriam o horizonte. Nós tínhamos erradicado quase todas as doenças e consertado muitas das falhas em nosso passado turbulento. Vivíamos em igualdade e liberdade.
Pai Tsum – perguntou o menor, com um tom quase inaudível — por que tudo mudou?
—Os demônios chegaram vindos do céu, com suas naves enormes, brilhantes como a prata. Dissimulados e mentirosos, fingiram-se de amigos. Foram acolhidos por nós e seu comércio nos trazia produtos interessantes que foram de nosso agrado. Mas à medida que o tempo passou, eles foram revelando suas verdadeiras intenções. Subornaram nossos líderes e passaram a querer controlar nosso mundo. Sua tecnologia e seus produtos foram recebidos com muita alegria por alguns de nós. Mas fomos incapazes de perceber que estávamos tornando-nos dependentes da ajuda alienígena, e acabamos destruindo nosso próprio conforto só para agradar aos demônios. Em nosso torpor coletivo, destruímos a harmonia que reinava em nossas sociedades.
O discurso foi interrompido por mais alguns sons abafados, semelhantes a um engasgo. Tsum respirava como dificuldade. Fez mais um esforço e continuou.
—Foi quando alguns de nós tomaram consciência do que estava acontecendo. Lutamos contra a opressão e expulsamos os traidores, aqueles malditos lacaios dos demônios alienígenas.
Mas nosso algozes não aceitaram a vontade dos libertadores de N’umya: atacaram nosso planeta com toda a potência de suas espaçonaves. Nosso planeta era pacífico, e já havia abandonado a cultura bélica há tantos séculos que ficamos indefesos. Eles despejaram bombas de fusão em nossas cidades, destruíram nossas terras e ocuparam nosso mundo. Hoje não passamos de alguns mortos-vivos esperando pela morte certa.
Kauran sabia que seu pai estava à beira da morte, e era por isso que ele não se importava de ouvi-lo repetir a mesma ladainha todas as vezes. Relembrar o trágico passado de seu povo fazia o cansado n’umyano esquecer do próprio sofrimento.
O pequeno Kauran se assusta com um barulho vindo na direção dos rochedos. Três enormes silhuetas vão ganhando contornos mais nítidos à medida que se aproximam. Com cerca de três metros de altura, seus corpos são cobertos por uma espécie de carapaça quitinosa azul-metálico. Quatro olhos multifacetados de cor amarela assentam-se sobre um crânio parecido com o de um cão. Usam como traje um envoltório transparente semelhante a plástico. Carregam aparelhos tubulares, provavelmente armas. Os n’umyanos encolheram-se de medo.
Tsum agarrou a seu filho, esperando pelo fim tão esperado de sua miserável vida. Um zumbido metálico muito breve interrompe o silêncio, e eles começaram a escutar os estranhos falando em sua própria língua...
—Não tenham medo, N’umyanos! Não somos aliados dos demônios. Viemos do planeta Aldhor, o quinto da estrela Zynä. Nós também sofremos com a ameaça dos invasores do espaço. Nada pode se comparar à crueldade destes monstros. Nós quisemos reunir vários dos povos agredidos por eles, mas nossa frota foi aniquilada. Somos os únicos sobreviventes de uma pequena nave de salvamento que caiu em seu planeta. Tentamos derrotá-los com armas, mas não adianta, pois eles são os mestres da guerra. Somos companheiros em sofrimento. Não resta nada a fazer...
– Então fiquem conosco. Vamos esperar pela morte juntos.
Um dos aldhoritas aproxima-se agitado : — Deixem-me falar com eles! Quero que eles compreendam a causa de nosso fim !
Seus companheiros o seguram, tentando impedi-lo de falar:
— Ele está delirando de novo. Aplique o resto de sedativo — grita um deles.
—Não, por favor... —pede o n’umyano—, deixem-no falar. Não há mais sanidade em nosso mundo agora ... que todos façam o que quiserem.
O aldhorita desvencilha-se de seus pares e começa a falar, num tom quase mecânico : — Sou Hat-Kon, e cresci ouvindo as histórias de minha velha bisavó, que como membro do Conselho Planetário de Aldhor circulava pelos bastidores da Comunidade Transplanetária. Foi no tempo dela em que a Comunidade decidiu acolher do mundo natal dos demônios, o terceiro planeta de uma estrela amarela. Permitiram a eles um avanço tecnológico sem o necessário amadurecimento de suas consciências, e assim plantaram a semente de seu próprio desastre.
Os n’umyanos escutaram tudo em silêncio, sem conseguir captar tudo com clareza. O aldhorita não parava de falar.
            — As primeiras gerações prosperaram e fundaram uma próspera rede de colônias interestelares, rapidamente absorvendo os conhecimentos de outros povos da Comunidade. Mas então sua crueldade natural tornou a se manifestar e eles se voltaram contra si mesmos e seus mundos coloniais. Em pouco tempo restauraram sistemas primitivos de ideias que outros mundos deixaram para trás.  Orgulham-se de ter escravizado seus semelhantes e assassinado seus heróis. Para eles não existem sociedades, apenas indivíduos cultivando uma obsessão egoísta de poder. Um novo monoteísmo emergiu, unificando a espécie pela veneração de um deus supremo cuja mão invisível ajuda os fortes e esmaga os fracos – O Indivíduo Supremo – a personificação sadomasoquista de um Senhor que os protege de todos, mas não de si mesmos. O Universo é deles por direito divino. Todos somos intrusos, destinados ao suplício eterno tendo que escolher entre a escravidão e o desaparecimento.
Hat-Kon continua o discurso com os olhos fixos no céu. Um ponto de luz púrpura atravessa o céu lentamente, sumindo bem atrás do Monte Kalk.  No intervalo equivalente a dezoito centésimos de segundo – o relógio de um aldhorita marca, mas sem ninguém para registrar -  todos desaparecem no interior de um novo cogumelo atômico...
Muitos quilômetros acima, pairando acima da atmosfera, um demônio comemora mais um triunfo. Séculos atrás, quando seus povos tinham muitas línguas, sua ciência havia proposto uma palavra única para defini-los. Homo sapiens. Significava “sábio”. Agora, em incontáveis planetas e satélites habitados por espécies menos afortunadas, esta palavra é traduzida como “Demônio”. Não aqueles demônios das lendas ancestrais e das fantasias literárias, mas demônios reais que se espalham pela galáxia.

DEMÔNIOS DO ESPAÇO
Texto: João Simões
Arte: Vítor Barbosa

Para o Conto 2
 
website counter