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sexta-feira, 28 de março de 2008

6. QUASE HUMANO

Johnson Ka acordou muito cedo naquele dia, e ficou na janela apreciando o brilho avermelhado da alvorada. Sua irmã Sarah estava no quarto ouvindo música, um disco de música antiga, provavelmente Beatles ou outro conjunto musical do século XX ou XXI, ele não sabia ao certo. Vestiu seu uniforme militar, limitou-se a dar um gole no copo de leite e saiu para trabalhar. Roubou um chiclete de hortelã da irmã mais nova e saiu pela rua mascando e pensando em sua noiva.

A pequena estrela vermelha que iluminava o Planeta Apache começava a despontar no horizonte como um rubi flamejante, e as altas árvores que formavam a imensa Floresta de Space Cuesta balançavam ao sabor do vento que trazia um forte cheiro de maresia. Um comboio de naves mercantes chegadas de alguma colônia terráquea flutuava a grande altura, com os cascos metálicos brilhando como enormes gemas cor de esmeralda. Johnson trabalhava há dois anos como vigia no Apache Trade Center, o principal conglomerado de câmaras comercias do planeta, em cujos andares subterrâneos funcionava a Bolsa de Valores de Apachepolis.

Apachepolis era a maior cidade do planeta e recebera este nome há cerca de dez anos atrás, quando o planeta foi reconhecido e aceito no Mercado Pan-Solar, deixando de usar o antigo nome de Krtmaiyruff.

Johnson ajeitou seu boné com esmero, e mais uma vez deu uma rápida conferida em sua aparência e vestimenta. Seus patrões eram muito rigorosos, e ele não queria perder este emprego, com o qual sustentava a mãe viúva e sua irmã caçula. Pegou o trem que levava até a Estação Apache Trade Center, e ligou seu minicomputador para saber das últimas notícias. Seu interesse estaca concentrado nos resultados do powerball da noite passada. O Apache Masters havia derrotado os Apache Titans por 35 a 21, e seguia líder do campeonato. Johnson vibrou com a vitória de seu time de coração, e seguiu o resto da viagem com a felicidade estampada no rosto.

Já perfilado em seu posto de vigia, Johnson Ka presenciou a chegada de uma delegação de sacerdotes-empresários. Eles passaram pela porta, fazendo as identificações retinianas de praxe, sem cumprimentar nenhum dos funcionários. Pegaram um elevador privativo, e conversavam em voz tão alta que dava pra ouvi-los até mesmo de longe. Os funcionários apachianos que acompanhavam a delegação não puderam seguir no mesmo elevador.

Os nativos do Planeta Apache — como Johnson Ka — não eram humanos. Johnson possuía quatro olhos miúdos de formato oval, e coloração cinza-aço, compostos por um conjunto de omatídeos compostos. Seu corpo era pequeno se comparado a um humano, não passando de um metro de altura, e sua pele escura era coberta por uma penugem rosada. O Planeta Apache só fora aceito no Mercado Pan-Solar após a certificação de que sua cultura tornara-se idêntica à dos humanos. Tornaram-se “Humanóides”, daí o termo NOID que qualificava os habitantes destes planetas na complexa hierarquia vigente na esfera de influência do Planeta Terra.

Assim que a Agência de Risco da Terra deu o aval para a incorporação daquele planeta, ele foi batizado com o nome de Apache, substituindo o nome original, Kyp, por um dos povos primitivos do mundo natal dos humanos. Os terráqueos sempre explicavam tal gesto em seus almanaques como um sinal de respeito pela sabedoria das antigas tribos, os quais ironicamente haviam sido exterminados por eles mesmos. Outros planetas da Esfera Humanóide tinham nomes expressivos como Maya, Maiori, Zulu, Cherokee, Seminole.

Era justamente de Seminole que acabara de chegar mais um visitante, um soldado da Raça dos BOLD chamado Reagan Mikulsun. Ele trazia o cabelo alisado por uma pasta gelatinosa, e seu uniforme deixava à mostra seus braços musculosos com tatuagens representando cadáveres não-humanos em chamas. Estava ali a contragosto, pois os militares não gostavam de sair de suas bases de operações, estrategicamente instaladas nos diversos mundos NOID. Estas bases eram conhecidas como Guardiães da Paz, pelo apoio que davam aos planetas assistidos. Os soldados só deixavam seus postos para neutralizar inimigos externos ou garantir a ordem interna nestes mundos.

Reagan quis passar direto pela porta, no que foi interpelado por Johnson, que com a máxima gentileza possível, sem olhar nos olhos do BOLD (como mandava a etiqueta), explicou que aquela entrada só podia ser usada pelos membros da delegação empresarial, e que os militares deveriam usar a entrada do lado leste.

Antes que pudesse completar a frase, um tapa derrubou-o como se fosse uma criança de colo. Furioso, o humano, sentiu-se ofendido pela intervenção do extraterrestre, e gritou uma série de palavrões antes de forçar a entrada. A porta, como seria esperado, não abriu.

— Nós passamos a vida inteira salvando estas lombrigas espaciais, e eles nos pagam assim! — gritou Mikulsun, cujo hálito denunciava um teor alcoólico bem elevado.

Johnson tentou se levantar, mas sentiu que seu ombro estava ligeiramente deslocado, e sentia uma dolorosa fissura em seu flanco esquerdo.

O militar devia saber que sua entrada não era permitida, mas os BOLD eram tão doutrinados para uma vida de constante batalha, que seus instintos violentos constantemente nublavam seus cérebros atrofiados. Além disso, a quantidade maciça de drogas estimulantes que se viam compelidos a usar tornava sua capacidade de raciocínio muito prejudicada.

A barulheira atraiu a atenção de outros funcionários. Dois policiais apachianos, autorizados a usar suas armas, sabiam que não podiam dispará-las contra um terrestre, e limitaram-se a pedir que Reagan se acalmasse.

— Senhor, pedimos que compreenda a situação. São normas de conduta ditadas pelos próprios LORD.

“LORD” era o nome como era conhecida a casta de sacerdotes que controlavam as atividades comerciais e financeiras no Mercado Pan-Solar. Para os Humanos, Religião e Comércio caminhavam de mãos dadas. A confusão persistiu, com o enfurecido BOLD tentando agora golpear o policial que ousara desafiá-lo, um apachiano cuja cabeça branca coberta de pêlos arrepiados contrastava com o tom escuro de seu corpo azul.

O tumulto só foi interrompido quando uma humana de pele escura e andar elegante saiu do prédio, seguida por um séqüito de silenciosos auxiliares nativos.

— Soldado, sua entrada não é permitida aqui — disse ela com um tom de voz macio e surpreendentemente baixo. Era a supervisora Leeza Siris, uma LORD muito temida pelos subalternos.

— Dirija-se à entrada leste. — disse ela, olhando fixamente nos olhos de Reagan, que parara de gritar. — Você foi convocado para explicar pessoalmente a operação em N’umya. A Sargento Reina Haag espera por você na sala 1492.

Por mais violento que fosse, Reagan sabia que jamais deveria questionar a autoridade de um LORD: as punições habituais por má conduta eram terríveis demais até mesmo para o mais bravo dos guerreiros.

O soldado abaixou a cabeça e andou rapidamente para o portão indicado. Nenhum pedido de desculpa foi dirigido a Johnson Ka, que continuava prostrado no chão, com a dor estampada no semblante inumano. Leeza limitou-se a ordenar que levassem-no à enfermaria, e pediu que providenciassem um substituto imediato para tal posto. Os policiais afastaram-se em seguida, reprimindo seu sentimento de ódio e repulsa pelo tratamento prepotente que recebiam. Tanto eles como Johnson, ou todos Apachianos de certo modo, sabiam que os Humanóides jamais seriam Humanos.

Para os terráqueos só existiam dois tipos de alienígenas: os amigos e os inimigos.

Aos amigos, presenteavam com a escravização do corpo e da alma.

Aos inimigos, seu único presente era o extermínio total.

Entre o Extermínio e a Escravidão, os habitantes de Kyp, o Planeta Apache, escolheram a última.

QUASE HUMANO
Texto: Simoes Lopes


terça-feira, 25 de março de 2008

5. FUMAÇA COLORIDA

Glo Khan e Thúr Vizi chegaram bem na hora marcada. A pequena nave ovóide deles pousou no imenso espaçoporto de Glumak Tai. Ao longe era possível apreciar a magnífica visão da Cordilheira Verde com o Monte Glumak, o pico mais alto do planeta Glenor.

A delegação de embaixadores glenorianos estava ansiosa pelo contato. O líder consensual do grupo, Baro K’Nadikon, adiantou-se a seus pares, e caminhou com pressa na direção do casal de gurzinianos.

— Vocês são bem vindos em Glenor, representantes de Gurzin! Nós vos saudamos com grande alegria! — entoou Baro a saudação de praxe.

Os outros embaixadores glenorianos conversaram bastante entre si antes de se aproximarem do par de visitantes alienígenas.

Glo Khan coçou as escamas douradas em sua cabeça redonda, e fez a saudação de praxe aos embaixadores de Glenor. Thúr Vizi piscou os grandes olhos esverdeados com pupilas verticais — incomodada com o ar relativamente frio de Glenor — e juntou-se a seu parceiro no cumprimento.

— A situação em nosso setor estelar está muito tensa. O Mercado Pan-Solar está realizando operações em N’umya, e acusa os Aldhoritas de conspirarem contra a paz e fomentarem rebeldia entre os n’umyanos — Glo Khan apressou-se em iniciar o diálogo, preocupado que estava com a situação.

O Embaixador Baro fumava cinco palitos de teb. Estes palitos eram muito populares em Glenor, feitos de uma mistura colorida de resinas aromáticas com a cera extraída de um pequeno invertebrado marinho. Do alto de seus cento e três anos de idade, Baro via a Política Galática como uma infindável teia de mentiras embelezadas por um jargão pomposo. Sabia que os Humanos jamais deixavam de usar a força quando lhes convinha, e que a União Planetária não conseguiria conter os impulsos beligerantes por muito tempo.

O cheiro forte e doce do teb parecia incomodar um pouco o interlocutor de Gurzin, que começou a espirrar, fazendo seus longos apêndices carnudos em forma de bigodes balançar.

— Já fomos informados que uma delegação de aldhoritas renegados foi presa ao pousar em seu planeta natal — informou Baro, com uma expressão que corretamente analisada seria percebida como melancólico. Os Gurzinianos ficaram assustados.

— Estamos aqui em nome de Gurzin declarar nosso apoio incondicional à União Planetária, e solicitar o envio de uma frota de couraçados em nosso apoio. O patrulhamento de nossas colônias está insuficiente para impedir incursões dissimuladas das espaçonaves terranas.

Baro K’Nadikon deu uma tragada tão forte que um dos palitos de teb simplesmente desmanchou-se num clarão de luz colorida. Sabia que os Gurzinianos estavam com medo da presença das belonaves do Mercado Pan-Solar em sua região galática, e tinha convicção de que seria uma questão de tempo mais esse planeta deixar a União Planetária e aderir à Esfera Neutra. A detecção dos Aldhoritas em N’umya havia provocado um verdadeiro turbilhão nos círculos diplomáticos da União. A alegação dos terráqueos era que ao participar de operações clandestinas, Aldhor estava oficialmente retirando-se da Esfera Neutra para aproximar-se da União. No jargão da poderosa Agência de Risco da Terra, os aldhoritas haviam sido rebaixados da categoria WILD, isto é, “selvagem”, dos mundos considerados neutros, para a classe odiada dos VOID, “os vazios”, devendo ser considerados como aliados dissimulados da União Planetária.

Os Humanos deslocaram dois de seus mais modernos couraçados, Peace e Freedom, para as cercanias do sistema planetário de Aldhor, e exigiram a prisão dos “dissidentes”. Sem opção melhor à vista, o governo aldhorita prontamente atendeu as exigências do Mercado Pan-Solar, e os supostos espiões estão presos e incomunicáveis. Mas os terráqueos não se deram por satisfeitos e agora pediram que lhes fossem entregues os cativos.

A União Planetária reiterou pelos canais cabíveis que não tinha nenhum vínculo com Aldhor, e que não estava em seus planos nenhuma ação de confronto. Os embaixadores glenorianos foram escolhidos para conduzir as negociações por serem os mais antigos, e acumularem uma vasta experiência no contato com os humanos. Pelas leis de Glenor, quanto mais velho, mais qualificado era um diplomata, o cargo era vitalício e sem direito a aposentadoria. Em outras palavras, os diplomatas glenorianos dedicavam-se a negociar até morrer. Baro K’Nadikon e sua falecida mãe Jud’ru K’Nadikon, estiveram entre os principais artífices do Tratado de Torka, que definiu os limites entre as esferas de influência dos Planetas Humanos e a União Planetária, garantindo um cinturão de “amortecimento” formado por planetas neutros. Para isso funcionar, a União teve que renunciar às suas posturas pacifistas seculares e reativar sua tecnologia bélica. Só assim foi possível refrear o ímpeto expansionista dos terráqueos, que planejavam esmagar até mesmo os planetas mais antigos da União. Além disso, a União nada pôde fazer para impedir que os mundos já conquistados fossem libertos: a Terra manteve suas possessões de forma integral.

As últimas ações da União haviam sido tomadas às pressas para impedir mais um conflito. A Terra alegava — como sempre — que estava apenas defendendo-se de ameaças externas, e que tinha direito a zelar pela neutralidade dos planetas assim declarados. As diversas espécies alienígenas que compunham a União, que mal passavam do cinqüenta — número irrisório considerando-se as mais de 3.000 que fizeram parte dela nos séculos anteriores à expansão da Humanidade, estavam enviando seus representantes diplomáticos para Glumak Tai, a maior cidade do planeta Glenor, para votarem numa nova deliberação coletiva. Tais assembléias eram normalmente feitas por meio de hipercomunicação, mas o medo de interceptações e espionagem tornaram necessária a volta das grandes reuniões de corpo presente. Uma vez protegidos, os embaixadores poderiam expressar suas opiniões de maneira mais direta. A maioria das delegações chegara com o mesmo pedido: reforçar o contingente militar em seus setores, algo que estava ficando cada vez mais difícil para as sobrecarregadas frotas da União.

À medida que escoltava a delegação gurziniana para os monotrilhos da estação de transporte, Baro olhava para os círculos de fumaça que dançavam ao redor de sua cabeça, formando anéis, ora vermelhos, ora azuis, até acabarem finalmente dispersados pelas rajadas possantes do Vento Oeste que zunia pelo espaçoporto. Assim ele percebia as ações da União: meras nuvens passageiras de fumaça a rodopiar e dançar, funcionando como distração por breves instantes, mas incapazes de resistir à fúria da ventania.

Os ventos sopravam cada vez com mais força.

Ventos que vinham do Planeta Terra.


FUMAÇA COLORIDA
Texto: Simoes Lopes

domingo, 2 de março de 2008

FICHA ALIENÍGENA 1: N'UMYANOS

N’UMYANOS

DADOS ASTRONÔMICOS

Estrela

Tavvar

Tipo

F8 V (anã amarelada)

Sistema

13 planetas, 143 satélites

DADOS GEONÔMICOS

Planeta

N’umya

Tipo
TG 1,014
Atmosfera
Oxidante 1,2

Diâmetro

14 003 km

Gravidade

1,1 gravum

Ano

529 dias

Dia

28 horas

Hidrosfera

62 % água

DADOS BIONÔMICOS

Taxonomia

3156 Crinichelonoides hexadactylus

Pés

2

Mãos

2

Dedos

6

Esqueleto

Endoesqueleto

Olhos

2

Bioquímica

Hidro-carbônica

Sangue

vermelho-níquel


Os n’umyan são baixos e atarracados, de estrutura humanóide. A pele é grossa, com aspecto de couro, e possuem bicos córneo semelhante aos das tartarugas. Seus olhos são alongados, e as pupilas são vermelhas luminescentes. As mãos e os pés possuem seis dedos. Uma crina lanosa se estende ao longo da cabeça até o dorso, de cor esbranquiçada ou acinzentada. Os machos são maiores que as fêmeas.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

4. DANDO NOME ÀS CRIATURAS


O animal enorme dormia profundamente devido aos sedativos aplicados. Murgo Krishna Peregrinus já estava com os resultados da varredura genética quase terminados, e esperava apenas que sua irmã Hara carregasse o computador com os dados da tomografia holográfica. Murgo conferiu mais uma vez a análise genômica da criatura, e sentiu-se preparado para iniciar o relatório para Mork Peregrinus, pai de ambos.

“Ursus crustaceus!”, Hara gritou para ele, com tanta ênfase que parecia estar soletrando.

— O que houve? — disse Murgo, coçando a barba já grisalha.

Ursus crustaceus — a cientista de cabelos tingidos de azul repetiu as palavras em latim com uma ponta de orgulho —, é como vamos batizar o bicho...

— “Ursus”, como os ursos da Terra? Não prefere criar um novo nome para o gênero? Seria melhor...

— O Código Galático de Taxionomia Exobiológica permite que nomes genéricos de seres vivos da Terra sejam dados a espécies alienígenas. Com o prefixo numérico, ele será chamado de 112 Ursus para distinguir do...

— Hara, eu conheço muito bem o Código. Eu fui seu professor, não é, maninha? — Murgo jamais se adaptara à tagarelice de sua irmã mais nova, desde que ela passou a fazer parte das viagens de pesquisa na Rhinoceros Unicornis, a nave que o Clã Peregrinus utilizava em suas expedições exobiológicas.

Os Peregrinus não eram um dos principais clãs de cientistas que compunham a Raça POD. “Pod”, um nome cujo significado primitivo era “legume”, já fora no passado um termo pejorativo usado principalmente pelas classes militares da Terra para referir-se aos cientistas que se dedicavam à catalogação das infindáveis formas de vida que pululavam pelos cantos da Via Láctea. Mas o uso contínuo do termo acabou caindo no uso comum, até mesmo pelos próprios exobiólogos. Estes dividiam-se em clãs que dividiam a tarefa de dar nomes às variadas criaturas extraterrestres. Mork Peregrinus, o já idoso pai do núcleo familiar composto por mais umas dezesseis pessoas, trouxera um grupo seleto de filhos e netos até o pequeno planeta gelado de Peregrinus 112, o décimo planeta a orbitar a estrela branca NK-13-137-56. Como podemos notar pelo nome dado ao planeta, os POD não dedicavam-se apenas à mera Exobiologia, sendo naturalistas com um alcance muito amplo: o clã de Mork incluía não somente exobiólogos, mais também químicos, planetólogos, astrônomos e planetógrafos.

Murgo, seu filho mais velho, era pai de outros dois componentes da equipe, Kamacron Salam, com 17 anos, e Linneus, com 16. Linneus, apesar da pouca idade, possuía uma cultura astronômica tão vasta, que já com treze anos de idade descobriu com sucesso pelo menos três grandes planetas terróides com biosferas extremamente interessantes.

Kamacron estava em missão de coleta de dados no planeta Aldhor, um planeta neutro que aceitara a presença da equipes científicas terranas para catalogar as suas formas de vida. Já fazia mais de um ano que Murgo não via o filho mais velho.

Hara parecia resoluta em dar nome à nova espécie analisada, enquanto seu irmão não parecia muito contente. Os exobiólogos terranos eram assim mesmo: viviam tão concentrados em sua pesquisa, que pareciam não dar muita importância a mais nada. Qualquer minúcia podia virar motivo para uma discussão.

— Olhe para ele! Apesar da cabeça se assemelhar mais à de um camarão, o corpo é muito parecido ao de um urso! — insistia a mulher, sem querer ceder um milímetro.

— Aquela espécie que eu cataloguei na Península A22 era muito parecida. Eu chamei de Caridarctus ruber, lembra? Acho que devemos incluí-la no mesmo gênero... — retrucou o irmão.

— Você acha que eu não conferi isso? — O seqüenciamento genômico mostrou que não são tão próximos assim...

— Temos que revisar isso — protestou Murgo, já subindo o tom de voz.

— Você nunca confia nas minhas idéias! Eu não sou tão burra quanto você acha! — Hara ficou tão irritada que Murgo sentiu que ia levar um tapa.

Um barulho ensurdecedor interrompeu o debate acalorado entre os irmãos. Uma pequena nave surgiu no céu esverdeado do mundo gelado, iluminando os picos cobertos de neve da Cordilheira A1 com um brilho dourado. Murgo e Hara esqueceram a polêmica científica por um breve momento e correram de volta para a base montada no sopé das montanhas.

Um ancião velho e esquálido, com uma comprida barba branca, trajando um macacão fino de tecido sintético estava sentado na poltrona maleável que ficava bem no meio da sala de comando. Mork Peregrinus, 71 anos, um homem famoso pela descoberta de mais de quarenta diferentes mundos habitados, estava com os olhos fixos na tela de segurança. Peregrinus 112 era um planeta sem formas de vida inteligentes, e nenhum tipo de civilização extinta. A presença de uma nave só podia indicar algo vindo “de fora”, e as naves dos clãs POD não estavam equipadas com armamento pesado. Murgo, medroso por natureza, já adentrara a sala ansioso por enviar um pedido de ajuda à nave militar mais próxima. Tilana, sua mãe, uma senhora gorda de sorriso largo e voz suave, a principal geneticista do grupo, tranqüilizou o filho, dizendo que a espaçonave já havia se identificado.

Quando entendeu direito o que estava acontecendo, Murgo soltou uma gargalhada.

Aquela nave possuía um único tripulante.

Era Kamacron, seu filho primogênito. Ele estava de volta.

Murgo apressou-se em avisar sua esposa Dharmi da boa nova.

— Dharmi, ele está de volta! — gritou o homem, ansioso pelo pouso da nave.

Até mesmo os membros do clã que estavam fazendo uma busca submarina num lago próximo voltaram à base para recepcionar o parente.

O clima era de tanta euforia que ninguém percebeu o tom de melancolia do jovem quando este apareceu na pista de pouso.

— Kamacron, meu querido, que bom! — gritou sua mãe, que chegava acompanhada das duas irmãs.

O rapaz não abriu a boca, limitando-se a caminhar lentamente na direção da base. Uma nevasca súbita caía sobre os cientistas. Não fossem seus equipamentos de sobrevivência, estariam congelados.

O avô foi o primeiro a notar que algo de errado havia acontecido. Ele acompanhou o neto de perto, sem dizer nada, esperando o momento certo para inquiri-lo.

— O que aconteceu, Kamacron? — perguntou Mork, com muito cuidado.

— Aldhor não está mais na Esfera Neutra, vô. Os BOLD mandaram evacuar as missões de intercâmbio. Os cientistas foram retirados à pressa.

— Mas, por quê? Era um planeta pacífico...

— Houve um incidente diplomático em N’umya. Parece que existem dissidentes aldhoritas indiciados por terrorismo anti-humano. O status de neutralidade foi temporariamente suspenso.

— É uma pena... a primeira tese do seu pai sobre os carnívoros queratinosos de Aldhor. Animais fascinantes!

Devido à rígida hierarquia dos humanos no século XXII (o termo correto seria “casta”, mas uso de tal termo era algo proibido, preferiam chamá-las de “Raças”, fazendo com que cada uma cultivasse seu próprio “orgulho racial”), os cientistas POD não se tinham a menor preocupação com as turbulências políticas e sociais do seu tempo. Sua única preocupação era estudar e catalogar. Até mesmo suas emoções eram um pouco embotadas. A Política era deixada para outras castas, assim como a Guerra, tão freqüente numa era onde uso da força tornava-se volta e meia necessário. Se Aldhor não conseguisse punir os “anti-humanos” de forma convincente, poderiam até sofrer uma invasão que restaurasse a “paz”.

Homens de ciência eram uma casta de frios e estudiosos catalogadores, e eram educados desde a mais tenra idade a não pensarem em mais nada. Mork Peregrinus pensava desta forma, assim como todos os componentes do seu clã.

Mas ele não sabia que seu neto estava prestes a cometer uma verdadeira blasfêmia contra seu próprio povo.

Pensamento crítico.

Kamacron presenciara coisas que fizeram ele duvidar da magnanimidade e benevolência da Humanidade.

Seus sentimentos estavam fortemente abalados. Ele sabia que estava sendo possuído por pensamentos odiosamente blasfemos, e jamais ousaria confessá-los ao seu clã.

Kamacron abraçou sua mãe e tias, e limitou-se a reclamar do cansaço. Uma boa noite de sono iria fazê-lo esquecer das idéias malignas.

Amanhã, ele escolheria algumas espécies desconhecidas para estudar e batizar com nomes latinos. Nada como um dia repleto de trabalho para expurgar os maus pensamentos.

Mas, por mais que ele resistisse, o germe da dúvida já havia contaminado a mente de Kamacron Peregrinus.

E a contaminação iria se alastrar...

DANDO NOME ÀS CRIATURAS
Texto: Simoes Lopes


terça-feira, 8 de janeiro de 2008

3. O FIM DA TRANQÜILIDADE

A pequena espaçonave aldhorita acabara de ultrapassar a órbita de gigantesco planeta gasoso que era o mais exterior daquele sistema estelar. A tentativa de contatar os n’umyanos foram um completo desastre. Os habitantes de N’umya, o quinto mundo a orbitar a estrela vermelha Tavvar, haviam tentado sair da esfera de influência dos humanos, e sofreram com isso “violentas sanções”, o que no jargão terráqueo significava tornar-se alvo de fulminantes ataques retaliatórios.

Jep-Fil caminhava agitado pelo corredor principal da nave onde acabara era oficial de posto mais alto após a morte do Comandante Hat-Kon na superfície do planeta N’umya. Aldhor, seu planeta natal, fora membro da União Planetária, uma coligação que no passado incluía centenas de espécies dos mais remotos cantos da Via Láctea. Mas com a crescente expansão dos humanos e de sua invencível máquina de guerra, muitos planetas foram incapazes de manter-se neutros em relação aos odiados e belicosos seres do Planeta Terra.

A opção por integrar a Esfera Neutra pareceu mais sensata ao Conselho de Representação que governava o belo planeta Aldhor. Não foram poucos os conselheiros que votaram em prol de uma aliança com os terráqueos, mas a maioria demonstrou seu desprezo por eles optando por uma solução intermediária, tornando-se aberto tanto às delegações da União Planetária, como ao Mercado Pan-Solar, o nome pomposo com que os humanos autodenominavam seus domínios intergaláticos.

Hat-Kon não imaginava que os demônios terrestres continuassem agindo no sistema de Zynä após os ataques a N’umya, mas sua falha de avaliação custara-lhe a própria vida, e Jep-Fil viu-se obrigado a assumir o comando na nave Kirittaim Tuy, um veículo relativamente leve, usado para explorações científicas, que o próprio Hat-Kon e seu clã equiparam com armamentos improvisados para enfrentar imprevistos. Entretanto, as belonaves terrenas que foram avistadas ao redor de N’umya, mesmo sendo pequenos modelos da classe Insect, possuíam um poder de fogo grande demais para os aldhoritas.

E assim, a ação mais sensata deles foi simplesmente fugir, deixando rapidamente as órbitas planetárias mais internas da estrela vermelha e preparando-se para o salto hiperespacial. Jep-Fil também estava preocupado em quais seriam as repercussões da presença dos aldhoritas em N’umya, pois embora seu planeta oficialmente fosse neutro, existiam muitos de sua raça que desejavam retornar à União Planetária. E dentre os descontentes, um grupo muito influente era o Clã Medicinal dos Hat.

Os Terráqueos exigiriam uma punição exemplar aos aldhoritas rebeldes, e nem mesmo o renome dos Hat seria capaz de conter a fúria dos humanos. O barulho grave que retumbava pelas câmaras da Krittaim Tuy indicava que o hiperpulsor já estava acionando o salto além da velocidade da luz.

A recém-tornado comandante teria muito tempo para pensar em seu futuro enquanto se mantivesse no hiperespaço.

Quando retornasse ao espaço normal, contudo, a tranqüilidade iria embora.

O FIM DA TRANQÜILIDADE
Texto: Simoes Lopes

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

2 A CRUZ E A ESPADA

A temperatura no centro da cratera ainda passava dos 500º C, mas nas imediações, o solo já ia recuperando sua cor inicial, de um ocre-amarelado intenso. Enquanto a parte inanimada do cenário gradualmente reassume um aspecto familiar, o mesmo não podemos dizer dos componentes outrora vivos daquele lugar. Em meio ao turbilhão de correntes de convecção que serpenteiam ao redor dos buracos na rocha arenosa, pequenos restos de esqueletos jaziam semicobertos pela poeira radiativa.
Um imponente ser metálico pairava a cima dos esqueletos, vasculhando as ossadas com um feixe de luz vermelha. O escaneamento tridimensional dos restos mortais não deixavam dúvida quanto à natureza daqueles corpos. Junto a dois n’umyanos, haviam restos de pelo menos dois indivíduos de outra espécie inteligente. O crânio esfacelado revela quatro órbitas oculares, assim como os restos de carapaça quitinosa facilitaram muito a identificação, e não foi necessário consultar o banco de dados exobiológicos da belonave Sad Beetle, para chegar a conclusão de que os alienígenas eram Aldhoritas.
A criatura de metal branco-prateado acionou uma espécie de campo de força luminoso que a propeliu de volta à estratosfera, onde flutuava uma espécie de silo em forma de cápsula. Assim que o ser prendeu-se ao objeto por meio de ventosas magnéticas e encaixes mecânicos, a cápsula espacial desapareceu num torvelinho cinzento,deixando em seu lugar apenas um vazio gélido.
Reagan Mikulsun observava pelos visores o painel de escalas luminosas que descreviam o estado do robô de monitoramento. A transferência dos dados para o computador central da nave durou apenas uma fração de segundo, e o soldado estava pronto para armazenar as informações e proceder os devidos relatórios. Não cabia a ele analisar ou entender o que tinha acontecido: apenas guardar os registros da forma correta e retornar com sua nave até o Planeta Seminole. Reagan Mikulsun pertencia à Raça dos BOLD, e sua missão em N’umya resumia-se apenas a realizar o ataque ao planeta. Os BOLD eram supersoldados cujo único objetivo na vida era o de lutar e vencer. Não cabia a eles planejar, estudar ou pensar sobre o que faziam.
Eram apenas engrenagens de uma poderosíssima máquina de guerra: O Exército Humano. Reagan foi enviado ao planeta N’umya em sua belonave Classe Mono Sad Beetle para realizar um ataque de advertência. Os N’umyanos faziam parte da Raça dos WILD, constituída por todas aquelas espécies de alienígenas que aceitavam viver sob a proteção da Terra, e estavam prestes a ser aceitos num patamar acima quando revoltas ocorreram conduzidas por agitadores. Incapazes de conter as forças que buscavam o atraso evolutivo do planeta, a sua aceitação num degrau superior do Mercado Pan-Solar foi seriamente comprometida. Para evitar que a dissenção contaminasse outros planetas na mesma etapa, foi ordenada a retaliação imediata contra N’umya.
Reagan não sabia ainda o que a detecção de aldhoritas agindo em N’umya podia significar. Só sabia que estes alienígenas eram inimigos, fazendo parte da Raça Maldita dos VOID, as espécies que recusaram a aliança com os humanos e seus planos de salvação galáctica. “VOID bom é VOID morto”, era o que Reagan costumava dizer a seus colegas BOLD, mas a perseverança daqueles extraterrestres em recusar o auxílio dos terráqueos era demais para a mente pura do soldado.
Reagan Mikulsun, 33 anos, cabelos tingidos de verde, e olhos violeta, nascido no Planeta Ta'aroa, aprendera em suas aulas de catecismo, que quando o Supremo Deus Vencedor derrotou o Demônio, este não o baniu para as profundezas do Inferno, com pensavam erroneamente nos séculos anteriores, mas sim baniu-o para as profundezas do Espaço. Lá, livre da presença dos corajosos Filhos de Deus, os Humanos, ele semeou o Universo com espécies malignas, a quem negou o conhecimento do Deus Verdadeiro. Quando os humanos conseguiram chegar em outros planetas, no início do século XXII, eles compreenderam que sua missão era levar a mensagem divina às outras espécies do Universo, e salvar estes “pagãos extraterrestres” das garras do Diabo.
Os N’umyanos persistiam em seu erro porque ainda viviam sobre a sombra do Maligno, do Blasfemo, do Inimigo. Reagan apertou seu relicário com força, enquanto rezava pela conversão daquela espécie pagã. Torcia sinceramente para que eles aceitassem a Luz e a Verdade.
“Arrependam-se!”, pensou ele.
Pois todo aquele que não arrepender-se e aceitar o Luz da Verdade, terá que contentar-se com a invencível luz dos canhões e bombas do Exército Humano.
Onde a Cruz falhou, a Espada, com certeza, não falhará.
A CRUZ E A ESPADA
Texto: Simoes Lopes
 
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